Divindades

As Divindades (orixá) são suportes em nossas vidas, nunca a solução.
A solução está dentro de nós, a Divindade nos dão sabedoria para encontrarmos as soluções.
A Tradição Yorubá, acredita que quando temos o suporte das divindades, caminhamos mais atentos.
Ori, a cabeça como Divindade, é a bússula do sagrado dentro de nós. Quando alimentado, jamais permite ser manipulado, e não se perde no caminho.
Nossos Essás (antepassados), são cultuados no objetivo de guiar-nos pelos caminhos que eles já percorreram.
As Eleyés, representam a vida e sua manutenção. O ser em equilíbrio com o Universo.
Exú é a dinâmica do mundo, o movimento de tudo que existe sobre a terra, inclusive nós. Um corpo sem Exú, é um corpo em coma.
Quem manipula forças divinizadas para o mal de seu semelhante, está automaticamente permitindo que as mesmas não façam mais parte de sua vida !
” Exu é quem leva o ebó, mas é o mesmo quem traz de volta.”
Pai Alex de Oxaguiã.

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Religião – No que você acredita?

“A Religião que eu acredito é aquela construída por todos, no dia-a-dia, com sacrifício, suor, respeito,
entrega, fé e amor ao Òrìsà…

A Religião que eu acredito abomina a feitiçaria, o topa tudo por dinheiro,
o materialismo desenfreado…

A Religião que eu acredito tem no Òrìsà o início, o fim e o meio, último e único recurso…

A Religião que eu acredito é a das velhas e
negras senhoras, de fé inabalável
e sabedoria que brota das raízes…

A Religião que eu acredito adora árvores como deuses, e tem na vida seu bem supremo…

A Religião que eu acredito é aquela onde a vestimenta não suplanta valores e onde não
se substitui a forma pelo conteúdo…

A Religião que eu acredito resistiu a escravidão,
ao porrete da polícia, a marginalização e
demonização sempre lhe imputada…

A Religião que eu acredito não é um modismo,
um suvenir, algo descartável que
jogamos fora quando não nos serve mais…

A Religião que eu acredito não é um show de
estética extravagante, circo dos incaltos,
mas um ritual de celebração a vida…

A Religião que eu acredito é uma experiência
vivida de amor pleno, fé e respeito aos Òrìsà,
dentro e fora de nós….”
AUTOR DESCONHECIDO

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Beduínos

Beduínos, nômades do Deserto. Compõem uma grande legião de trabalhadores que vem dentro da Linha do Povo Cigano.
Trabalham com a alta magia. Com a energia do Sol e da Lua. São curadores. Misteriosos, falam pouco e são extremamente sábios.12347817_819995181442566_6720431073915570386_n

Beduinos‬

Os árabes são os integrantes de um povo heterogêneo que habita principalmente o Oriente Médio e a África setentrional, originário da península Arábica constituída por regiões desérticas e clima subtropical mediterrâneo no litoral . As dificuldades de plantio e criação de animais fizeram com que parte de seus habitantes se tornassem nômades, vagando pelo deserto em caravanas, em busca de água e de melhores condições de vida. A essas tribos do deserto dá-se o nome de beduínos.12369011_820098068098944_4255948919709887914_n

Malandros

Malandros, entidades que vibram muito próximo a crosta. Usam de seus conhecimentos de vidas passadas para atuarem como professores entre nós, fazendo-nos estar mais atentos as armadilhas da vida. Grandes mestres, professores que por ordem da Lei Divina, executam suas tarefas em locais de baixa vibração, desintoxicando, resgatando espíritos encarnados e desencarnados caídos nas vielas da vida. Astutos, irreverentes e brincalhões. Características de entidades que através dessa linguagem conseguem ir a fundo mergulhando na alma humana e assim fazendo a assepsia necessária.
Malandro não é marginal.
Malandro não é delinquente.
Malandro é trabalhador, são verdadeiros resgatadores de almas, que usam de todo seu arquétipo para facilitar o seu trabalho.
Salve a Malandragem !

Pai Alex de Oxaguiã

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Alfabeto Yorùbá

Toda língua possui um conjunto de grafemas (signos, letras) que possibilita o registro gráfico das informações culturais de um povo. Isso não é diferente com o povo yorùbá. Sua língua, também chamada yorùbá é riquíssima em signos, sons e significados.

Entender como funciona o registro gráfico de uma língua é a base para compreender os seus demais mecanismos linguísticos e gramaticais. Por isso, saber como usar o alfabeto yorùbá, é condição sine qua non para aprender os fundamentos básicos dessa língua que tanto nos instiga.

O alfabeto da língua yorùbá é composto de vinte e cinco letras divididas em sons consonantais e vocálicos, assim como no português.

As letras de uma língua são chamadas de grafemas e os sons que produzimos, quando pronunciamos os grafemas, são chamados de fonemas.

Para facilitar o aprendizado e a compreensão clara do alfabeto da língua yorùbá, abaixo, apresentaremos um quadro contendo os grafemas da língua yorùbá e seus respetivos fonemas.

GRAFEMAS FONEMAS
A,a /a/
B,b /bi/
D,d /di/
E,e /e/
Ẹ,ẹ /ɛ/
F,f /fi/
G,g /gi/
GB,gb /gbi/
H,h /Ri/
I,i /i/
J,j /dji/
K,k /ki/
L,l /li/
M,m /mi/
N,n /ni/
O,o /o/
Ọ,ọ /ɔ/
P,p /pui/
R,r /ri/
S,s /si/
Ṣ,ṣ /xi/
T,t /ti/
U,u /u/
W,w /iu/
Y,y /ii/

Como se pode ver no quadro acima, na língua yorùbá não existem as letras C, Q, V, X e Z. Os sons do C, como conhecemos em português, são grafados com “k” (casa) e com “s” (doce). O som de Q é grafado com “k”. O som de “x” é grafado com “ṣ”. O “v” e o “z” não são sons frequentes na língua.

Outra peculiaridade que gostaríamos de mencionar é o grafema “gb” que, embora seja escrito com duas letras, equivale a apenas uma. Na pronúncia, o “gb” deve ser pronunciado de modo a produzir os dois sons, ou seja, os sons do “g” que é igual a /g/ e do “b” que é igual a /b/, ou seja: /gb/.

Em face do que foi falando anteriormente, esse fenômeno linguístico não se equivale aos dígrafos consonantais do português, a exemplo de “rr”, “ss”, “sc”, “sç”, “ch”, “nh”, “lh” “qu” e “gu”.

Os dígrafos da língua portuguesa, embora sejam escritos com duas letras, são pronunciados numa só emissão de voz, compondo apenas um fonema. Por isso que o “gb” do yorùbá não se equivale aos nossos dígrafos já que, ao ser pronunciado, é possível ouvir os dois sons distintos de “g” e de “b”. Entenderam?

Em yorùbá, temos as chamadas vogais nasais que equivalem aos nossos dígrafos vocálicos, são elas:

VOGAIS FONEMAS
AN,an /ã/
EM,em /ẽ/
IN,in /ĩ/
ON,on /õ/
UM,um /ũ/

A letra “N”, empregada depois das vogais, só serve como indicativo sonoro. Necessariamente não constitui um fonema em si mesma.

A vogal nasal “on” aparece sempre depois das consoantes B, F, GB, M, P e W nas palavras. Na frase “Èsú wa jú wo mòn mòn ki wo Odára”, a palavra “mòn” é um exemplo do uso. A vogal “an” é usada com as demais consoantes, a exemplo da palavra “inán” expressa na frase “Inán inán mo júbà e e mo júbà”.

As letras “n” e “m” em vogais nasais finais são sempre suprimidas na escrita, mas não na pronúncia. Exemplos ogá(n), iná(n), omi(n).

VOCABULÁRIO:

Iná(n): fogo

mòn: saber, entender, conhecer

ogá(n): cargo masculino no Candomblé

omi(n): água

yorúbà: povo negro do grupo sudanês, nome da língua desse povo.

TRADUÇÃO DAS FRASES:

“Èsú wa jú wo mòn mòn ki wo Odára”: Exu nos reconhece e sabe que o culto é bom.

“Inán inán mo júbà e e mo júbà”: Meus respeitos ao Exu do Fogo.

REFERÊNCIAS:

BENISTE, José. Dicionário yorùbá português. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.

BENISTE, José. Òrun àye: o encontro de dois mundos. 4.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

FONSECA JÚNIOR, Eduardo. Dicionário yorùbá português. São Paulo: Civilização Brasileira, 1988.

OLIVEIRA, Altair B. Cantando para os orixás. 4.ed., Rio de Janeiro: Pallas, 2012.

PORTUGAL FILHO, Fernandez. Guia prático de língua yorùbá. São Paulo: Madras, 2013.
WIKIPÉDIA. Língua iorubá. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_iorub%C3%A1

(Por Thonny Hawany)

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Acentuação e entonação na língua Yorùbá

Para refletir sobre os conceitos mais profundos da prosódia de uma língua, é preciso antes esclarecer dois conceitos que julgamos importantes para que as proposições futuras sobre o assunto fiquem claras. São eles: entonação e acentuação. A entonação é o nome que se dá à intensidade com que um indivíduo pronuncia as sílabas de uma palavra. Trata-se, portanto da variação de intensidade que se emprega ao falar. A acentuação define-se como sendo o ato de acentuar palavras na fala ou na escrita.

Existem dois tipos de acentuação: a tônica e a gráfica. A acentuação tônica é a que determina qual sílaba de uma palavra, com mais de duas sílabas, deve ser pronunciada com maior intensidade. A acentuação gráfica está relacionada com a colocação (ou não) de sinais diacríticos sobre as vogais para determinar, na fala, que sílaba deve ser pronunciada com maior ou menor intensidade.

Cabe ainda lembrar que os dois conceitos estão intimamente ligados, visto que a acentuação gráfica ajuda a compreender como se deve entonar as sílabas de uma palavra. A acentuação garante a melodia da palavra, da frase e da língua como um todo.

Havendo feito os esclarecimentos preliminares, passemos, pois, ao objeto deste texto que é a acentuação e a entonação das palavras no idioma yorùbá.

Diferente das mais conhecidas línguas do planeta, o yorùbá tende a acentuar, graficamente, mais de uma sílaba das palavras que compõem o seu vernáculo.

A acentuação gráfica do yorùbá, além de informar a intensidade que deve ser utilizada na pronúncia das sílabas de uma palavra, também pode indicar a diferença de significado existente entre dois ou mais signos linguísticos com grafias semelhantes. Neste caso, o acento não tem função demarcadora da entonação, mas de diferenciar os significados das palavras. Em português, chamamos esse fenômeno de acento diferencial.

Como exemplo de acento diferencial em yorùbá, tomemos as palavras àṣẹ́, aṣẹ́ e àṣẹ. Da esquerda para a direita, a primeira palavra (àṣẹ́) significa menstruação, a segunda (aṣẹ́) significa coador e a terceira (àṣẹ) significa o poder emanado dos òrìṣà (divindade cultuada pelo povo yorùbá). Assim sendo, o uso indevido da acentuação gráfica pode causar dúvidas, ruídos e, por que não dizer: até constrangimentos.

Os acentos gráficos usados na língua yorùbá são: o agudo (´); o grave (`) e o til (~), este último encontrado, segundo alguns autores, na escrita antiga, como se pode ver na grafia da palavra ãṣẹ̀ (porta larga) que, mais tarde, passou a ser escrita com duplo “a”, assim: ààṣẹ̀. No idioma yorùbá, há também as sílabas sem nenhum acento e que devem ser pronunciadas com entonação média.

A não observação dos acentos das palavras do yorùbá tem provocado traduções absurdas de textos escritos nessa língua, especialmente, daqueles usados na ritualística religiosa.

Os acentos gráficos (ou a falta deles) para denotar a forma como devemos (ou não) pronunciar as sílabas e as letras da língua yorùbá podem ser classificados da seguinte forma:

O acento agudo (´) é aquele que indica sempre a sílaba (ou as sílabas) que devem ser pronunciadas com maior intensidade nas palavras. Vejamos! Na frase: Bàbá mi ni àìdá (Meu pai é severo), a palavra bàbá possui dois acentos: o grave que indica a sílaba menos intensa e o agudo que indica a sílaba mais intensa, ou seja: a sílaba com maior tonicidade e, por isso, deve ser entonada mais fortemente. A palavra àìdá tem dois acentos graves e um agudo, ou seja, duas sílabas de intensidade fraca e uma de intensidade forte.

O acento grave (`), como já vimos, serve para marcar a entonação mais fraca de uma sílaba numa palavra. Na expressão: mo júbà (meus respeitos), a sílaba de entonação mais forte é “jú” e não o “bà” como se vê, na prática, na maioria das casas de Candomblé.

A falta de acento sobre as vogais também é informação prosódica em yorúbá. Quando a sílaba não tem acento, isso significa que deve ser pronunciada com média intensidade em relação às demais que podem ser de forte ou de fraca intensidade. Vejamos! Na frase: Èsú ni Olúwa mi. (Exu é o meu senhor.), a palavra olúwa tem três sílabas: o-lú-wa. Nitidamente se pode notar que duas dessas sílabas não têm nenhum acento, por isso devem ser pronunciadas com entonação média em relação à outra. Há casos em que há três entonações diferentes numa só palavra. Veja o que ocorrer em Adùpẹ́ ọrẹ́ mi! (Obrigado meu amigo), a palavra a-dù-pé tem três sílabas e cada uma delas com uma intensidade diferente: média, baixa e alta consecutivamente. Assim sendo, a referida palavra deve ser lida: aduPÉ.

Em face do exposto, afirmamos que entender o funcionamento dos sinais diacríticos da língua yorùbá, especialmente aqueles relacionados à acentuação gráfica, constitui condição primordial para a compreensão da pronúncia correta das palavras a fim de promover uma comunicação livre dos ruídos e dos equívocos.

REFERÊNCIAS:
BENISTE, José. Dicionário yorùbá português. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
BENISTE, José. Òrun àye: o encontro de dois mundos. 4.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.
FONSECA JÚNIOR, Eduardo. Dicionário yorùbá português. São Paulo: Civilização Brasileira, 1988.
OLIVEIRA, Altair B. Cantando para os orixás. 4.ed., Rio de Janeiro: Pallas, 2012.
PORTUGAL FILHO, Fernandez. Guia prático de língua yorùbá. São Paulo: Madras, 2013.
WIKIPÉDIA. Língua iorubá. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_iorub%C3%A1. Aceso em: 14/07/2015.

(Por Thonny Hawany)

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Ortoépia da língua Yorùbá

A ortoépia é a parte da gramática que se ocupa em estudar, classificar e orientar a forma correta de pronunciar os grupos fônicos de uma determinada língua. A ortoépia está, portanto, intimamente relacionada com os estudos sobre as maneiras utilizadas para a emissão das vogais e também da correta articulação dos sons consonantais. Segundo renomados gramaticistas, os erros cometidos contra a ortoépia são chamados de cacoepia e depõem, quase sempre, contra o falante que, segundo sua formação e posição social no grupo, deveria utilizar o dialeto padrão, ou seja: a chamada norma culta.

Com o propósito de não divagar sobre um assunto que merece praticidade, neste texto, vamos tratar apenas dos casos mais comuns e frequentes da ortoépia da língua yorùbá.

Vejamos os casos que merecem destaque:

  1. a) As vogais “e” e “o” que podem ser “ẹ” e “ọ”;
  2. b) O consoante “s” que pode também ser “ṣ”;
  3. c) O fenômeno “gb” e sua pronuncia ideal;
  4. d) A pronúncia correta do “p”;
  5. e) A pronúncia do “j” e do “g”;
  6. f) A pronúncia do “h” e do “r”;
  7. g) A pronúncia das vogais nasais no final de palavras.

Equivocadamente, alguns autores estudam o ponto (.) colocado embaixo das vogais “ẹ” e “ọ” como sendo uma questão de acentuação gráfica. Isso não procede. Esse fenômeno é nitidamente uma questão de ortoépia e não de prosódia (estudo das sílabas átonas e tônicas de uma lígua).

Na palavra ọdẹ (caçador), a letra “ẹ” deve ser pronunciada como em café. A mesma letra, sem o ponto, deve ser entonada como na palavra bebê.

Na expressão Ọlọ́ọ̀nọ̀n (Senhor do caminho) e também na palavra ọdẹ, todas as letras “ọ” possuem o ponto subjacente indicando que o fonema deve ser lido e pronunciado como nas palavras cipó e vovó do português, ou seja, com o timbre aberto. Já o “o”, sem o ponto embaixo, portanto, deve ser pronunciado como na palavra vovô, em português.

No caso da letra “ṣ” com o ponto subjacente, o fonema deve ser lido com o som do “x” ou do “ch” empregados nas palavras xadrez e chuchu da língua portuguesa. A palavra Èṣù (divindade), em razão do ponto sob o “ṣ”, deve-se ser pronunciada como sua tradução para o português: Exu. Por sua vez, o “s”, sem o ponto sobposto, deve ser pronunciado com o som que tem na palavra sapo também do português.

Para ampliar o entendimento do uso dos fonemas /s/ e /ʃ/, tomemos o nome do grande caçador Ọ̀ṣọ́ọ̀sì, no qual estão, nitidamente, expressos os dois fenômenos anteriormente mencionados. No aportuguesamento da palavra: Oxossi, o uso dos fonemas /ʃ/ e /s/, nesta sequência,   fica evidente. Ficou claro? Foneticamente, as palavras Èṣù e Ọ̀ṣọ́ọ̀sì devem ser grafadas assim: /ɛ’ʃu/ e /ɔ’ʃɔsi/. Então vamos adiante!

Certa feita, alguém me disse que o “g” antes de “b” não deveria ser pronunciado nas palavras do yorùbá. Fiquei intrigado, mas guardei esse entendimento por muito tempo. Ao ouvir o saudoso Altair T’ògún em “Cantando para os Orixás”, desconfiei daquele entendimento prévio que tinha sobre o encontro “gb” e para minha surpresa descobri que não eram duas letras, mas dois grafemas que equivaliam a uma única letra do alfabeto. A esse fenômeno, eu prefiro chamar de encontro que de letra como faz a maioria dos autores que li pesquisando sobre o assunto. O encontro “gb” gera um som que não possui correspondente em língua portuguesa.

Em síntese, no encontro “gb”, as duas letras são pronunciadas. O “g” com menor intensidade que o “b” e bem lá no fundo da garganta. Na frase: Ẹ ku aró gbogbo! (Bom dia a todos!), a palavra gbogbo deve ser, foneticamente, falada assim: /gbo’gbo/ e não /bobo/. A palavra ẹgbẹ deve ser falada desta forma: /ɛg’bɛ/ e não /ɛ’bɛ/. Entendeu?

Nas palavras em que o “p” figura como fonema, sua pronúncia ocorre como se ele compusesse uma sílaba com a letra “u”, mais a vogal. Assim: (pua, pue, puẹ, pui, puo, puọ, puu). Na expressão: aṣọ pupa. (Roupa vermelha), a palavra pupa deve ser lida foneticamente assim: /puu’pua/. De igual modo a palavra Igi-òpe, palmeira sagrada (dendezeiro), lê-se /igio’pue/.

Havendo vencido satisfatoriamente as discussões sobre o “p”, vamos trocar de assunto, mas ainda nos mantendo nas questões de ortoépia. Deste modo, o “j” das palavras escritas em yorùbá deve ser lido como se estivesse antecedido pela letra “d”, ou seja: como se fosse um conjunto formado pelas duas letras “d+j” e cujo fonema corresponde deve ser /dʃ/. Assim sendo, as expressões ìbeji, Yẹmọnja, mo júbà devem ser lidas assim: /i’bedʃi/, /iɛmõ’dʃa/ e /mo ‘dʃuba/. Creio que isso foi suficiente para o entendimento de todos. Vamos continuar.

Assim como a letras “j”, a letra “g” pode constituir um problema de ortoépia para os falantes de língua portuguesa que querem aprender o yorùbá como segunda língua. Vejamos! Sobre o “j”, nós já falamos no parágrafo anterior, resta então falar sobre a letra “g” que, na língua yorùbá, por sua vez, independente da vogal que a acompanhe na sílaba, nunca tem o som de “j”. Assim o sendo, todas as vezes que aparecer um “g” numa palavra, deverá ser lido como o “g” da palavra gato em português. Exemplo: Ògún (Divindade), àgó (perdão, licença). Ficou clato? Então vamos falar de outro assunto.

As vogais tônicas nasais finais constituem um fenômeno linguístico que pode suscitar muitas dúvidas ao falante desavisado. Essas vogais (a exemplo de “an”, “in” e “on”), quando escritas, perdem o “n” nazalizador; no entanto continuam, na fala, sendo entonadas de forma nazal. Assim sendo, as palavras ọ̀gá (cargo, chefe, mestre), omi (água), ọ̀nà (caminho) devem ser pronunciadas, respectivamente, /ɔ’gã/, /o’mĩ/ e /ɔ’nã/.

Ainda na ceara da ortoépia, cabe, por último, uma discussão sobre a letra “h” que em português não tem som algum. Na língua yorùbá, o “h” tem som aspirado e deve ser pronunciado da mesma forma que o dígrafo “rr” da língua portuguesa na palavra carro /kaRu/. As palavra hun (tecer) e hihu (grito) devem ser lidas respectivamente da seguinte forma: /Rũ/ e /RiRu/.

Em suma e com base em tudo o que vimos a respeito da ortoépia da língua yorùbá, compreendemos que uma língua não serve, somente, como instrumento de comunicação em sociedade, mas, acima de tudo, como delimitadora das diferenças estabelecidas no seio desta mesma sociedade. Falar usando o dialeto culto ou as demais formas denota o que o falante é, o que ele sabe, como sabe e o quanto sabe sobre si, sobre o meio e sobre o outro. Espero que este texto sirva para melhorar a sua condição, leitor, como falante dentro do grupo em que esteja inserido.

            Em síntese, espero ainda que essas noções de ortoépia da língua yorùbá sirvam como reflexão e ponto de partida para pesquisas mais profundas, visto que, em nenhum momento, pretendemos, neste texto, exaurir o tema.

REFERÊNCIAS:

BENISTE, José. Dicionário yorùbá português. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.

BENISTE, José. Òrun àye: o encontro de dois mundos. 4.ed., Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

FONSECA JÚNIOR, Eduardo. Dicionário yorùbá português. São Paulo: Civilização Brasileira, 1988.

OLIVEIRA, Altair B. Cantando para os orixás. 4.ed., Rio de Janeiro: Pallas, 2012.

PORTUGAL FILHO, Fernandez. Guia prático de língua yorùbá. São Paulo: Madras, 2013.

WIKIPÉDIA. Língua iorubá. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_iorub%C3%A1

(Estudo feito por Thonny Hawany)

Osun-Osogbo Sacred Grove

Osun-Osogbo Sacred Grove

Pronomes pessoais do caso reto do idioma Yorùbá

Os pronomes pessoais compõem um conjunto de pequenas palavras muito importantes para a efetivação de uma determinada língua. Todo idioma requer a existência dos sujeitos que praticam, que sofrem, ou que praticam e sofrem, ao mesmo tempo, a ação verbal.

Os pronomes pessoais do caso reto são aqueles que indicam as três pessoas do discurso. Para facilitar o entendimento, abaixo, apresentaremos um quadro comparativo entre os pronomes do yorùbá e os do português.
São eles:

Flexão de Número Yorùbá Contração dos Pronomes Português
Singular Èmi Mo Eu
Ìwọ O Tu/Você
Òun Ò Ele
Plural Àwa A Nós
Ẹyin Vós/vocês
Àwon Wọn Eles

Na língua yorùbá, os pronomes pessoais sempre devem aparecer nas frases para que fique bem especificado quem fala, com quem fala e de quem/que se fala.

Na prática, os pronomes pessoais retos do yorùbá são sincopados, ou unidos a outras palavras por síncope, mas não deixam de estar presentes nos enunciados.

As frases do yorùbá devem primar, quase sempre, pela ordem direta, a saber: sujeito + verbo + complementos verbais. Veja o exemplo a seguir:

 

Sujeito Verbo Complemento Verbal
Òun ni Olùkó ti yorùbá.
Ele é professor de yorùbá.

 

Os pronomes sujeitos da língua yorùbá variam apenas em número, visto que o gênero, no caso dessa língua, é dado pelo contexto da frase.

A discussão sobre os pronomes pessoais não se esgota por aqui. Oportunamente, voltaremos a eles apresentando os usos e as peculiaridades significativas de cada um.

REFERÊNCIAS:
BENISTE, José. Dicionário yorùbá português. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.
FONSECA JÚNIOR, Eduardo. Dicionário yorùbá português. São Paulo: Civilização Brasileira, 1988.

PORTUGAL FILHO, Fernandez. Guia prático de língua yorùbá. São Paulo: Madras, 2013.
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O Ìpàdé

A finalidade deste texto não é escrever um tratado sobre o ìpàdé, visto que o assunto é bastante amplo, não sendo possível exauri-lo em poucas linhas. Pretendemos, no entanto, de modo despretensioso, apresentar algumas informações básicas sobre essa tão importante cerimônia dos cultos de origem africana que está caindo no esquecimento ou, quando não, sendo modificada/simplificada em muitas casas de Candomblé.
Diferente do que é praticado na maioria das casas de culto aos orixás, o ìpàdé é uma cerimônia mais complexa que o ato de cantar para Èṣù e ao final das cantigas ofertar o  “mi-ami-ami”, espécie de farofa feita de farinha de mandioca com azeite de dendê ou com outra iguaria (cachaça, água, mel entre outros) — Comumente chamado de pàdé —, espargir uma porção de água de uma quartinha de barro e acender uma vela em um dos cantos da porta de entrada.
Assim sendo, queremos, inicialmente, diferenciarmos o ìpàdè do pàdé para que não existam dúvidas, ao final, sobre o que estamos chamando de ìpàdé. A palavra pàdé ganhou duas acepções na maioria das casas de culto no Brasil: tanto é usada para designar o ato de cantar para Èṣù, quanto para se referir ao “mi-ami-ami”. Ademais, a mesma expressão (pàdé), segundo o dicionário de língua yorùbá de José Beniste, é utilizada para denotar reunião de pessoas e não farofa feita de farinha com dendê ou com qualquer outra iguaria. Salienta-se que a palavra ìpàdé aparece, no dicionário pesquisado, traduzida também como reunião assim como a palavra pàdé.
Outro importante equívoco que merece ser dirimido neste texto é o fato de o ìpàdé não ter a função de despachar Èṣù. A belíssima cerimônia do ìpàdé serve, inicialmente, para louvar e agradar Èṣù que é o mensageiro entre o homem e os demais orixás e também para louvar outras entidades conforme veremos mais adiante.  Èṣù fala a língua dos homens e a língua dos orixás. É ele quem leva as súplicas e mazelas dos homens aos orixás e quem traz as respostas do òrún (céu, firmamento) às dúvidas humanas. O ìpàdé não deve ter a conotação de presente para que Èṣù não perturbe a cerimônia e sim de presente para que ele, como mensageiro, faça a ponte entre o homem e os orixás e não deixe que nada de mal aconteça enquanto é realizada a cerimônia principal, ou seja, a festa aos orixás.
O ìpàdé é uma cerimônia, eminentemente, feminina nas casas de Candomblé, é celebrado pela ìyamoró, apoiada pelas filhas mais velhas da casa, preferencialmente, pela ajimuda,  pela dagan e pela sidagan, ao som de cantigas cantadas pela iyá tèbèsé, sob o controle e supervisão do babáloìṣá e/ou ìyálorìṣá, mas isso não significa que outras mais velhas não possam participar do ato. Os homens participam tocando os instrumentos e respondendo as cantigas apenas. Somente a iyamoró tem o poder de entrar e sair do templo durante o ato do ìpàdé haja vista ter ela recebido a cabaça que afasta as grandes mães.
Para o cerimonial do ìpàdé é depositado sobre o centro da casa um alguidar (prato de barro) contendo “mi-ami-ami” feita de farinha de mandioca com azeite de dendê, uma quartinha com água límpida, uma vela acessa e pratos com as comidas de preferência dos ancestrais.
Como se sabe, o ìpàdé é dirigido acima de tudo a Èṣù, no entanto são celebrados outros entes importantes para os cultos de matriz africana, tais como os Eguns, os Egunguns e os babás Eguns (antepassados), os essá (mortos ilustres no candomblé), às grandes mães Ìyámí (Osoronga, Opaoká e Ajé Salunga). Por fim, são celebrados os orixás dos mais antigos considerando a linhagem de cada raiz.
Depois do ìpàdé, os ritos seguem normalmente conforme o planejamento de cada casa. Salienta-se que essa cerimônia serve para retirar o ajé (as energias negativas) para que os demais ritos sejam coroados de êxito, de harmonia, de tranquilidade e de paz.
Metodologia:
I. É uma cerimônia interna da casa, por isso é recomendável que apenas os de casa participem.
II. Arriar um alguidar com o mi-ami-ami, preferencialmente, feito de farinha com azeite de dendê, uma quartilha de barro contendo água fria e límpida, comidas preferidas dos ancestrais (se for o caso), vela acesa, tudo no centro da casa.
III. Devem participar dos atos principais apenas os cargos indicados no texto acima.
IV. Canta-se na sequência para Exu, ancestrais, Yamins, Oxum (primeira mãe de santo) e orixás da linhagem.
V. Ao cantar para Exu, ancestrais e Yamins, a ìyámorró acompanhada de suas auxiliares sai com o mi-ami-ami, a quartinha de água, as comidas dos ancestrais e a vela para fazer as oferendas conforme cada casa.
V. Ao retornar, são orquestrados os cânticos para os demais orixás reverenciando os santos da linhagem, do bisavô, do avô, do pai etc.
Vocabulário:
Ajé: energia negativa.
Ajé Salunga: uma das três Ìyámí.
Ajimuda: cargo feminino responsável pelos carregos da casa, auxilia no ìpàdé.
Babá Egun: espíritos de antigos babalorixás.
Babáloìṣá: sacerdote afrodescendente.
Dagan: cargo feminino responsável por fazer os preparativos do ìpàdé.
Egun: alma ou espírito de qualquer pessoa falecida.
Egungun: espírito ancestral de pessoa importante para os cultos afros.
Essá: pessoas já falecidas que devem ser reverenciadas no oxé.
Èṣù: Orixá africano responsável pelos caminhos; senhor dos caminhos, senhor do movimento.
Ìpàdé: cerimônia de louvação e entrega de oferendas a Èsù e aos ancestrais de uma casa de candomblé.
Ìyálorìṣá: sacerdotisa afrodescendente.
Íyámí: As grandes mães feiticeiras, aquelas que detém o segredo da criação.
Ìyámoró: Principal  responsável por dirigir o cerimonial do ìpàdé.
Ìyátèbèsé: porta-voz do orixá da casa, pessoa feminina que dirige os cânticos.
Mi-ami-ami: farofa de farinha com dendê, água, mel, azeite, cachaça.
Opaoká: uma das três Ìyámí; árvore sagrada para os yorubás
Òrún: céu.
Osoronga: uma das três Ìyámí.
Osidagan: auxiliar da Ìyádagan
Otundagan: auxiliar da Ìyadagan
Pàdé: reunião de pessoas de uma determinada sociedade. No Brasil é o nome mais conhecido para a farofa de farinha de mandioca dom iguarias líquidas oferecidas a Èxú, ver mi-ami-ami.
Yorùbá: iorubá, idioma nigero-congoles que é falado no sul do Saara, na África, e no Brasil.
Referências:
BENISTE, José. Dicionário yorùbá português. São Paulo: Bertrand Brasil, 2013.
ATENÇÃO! Este texto tem como proposta apresentar, de modo muito panorâmico e modesto, a cerimônia do ìpàdé que, como o passar dos tempos, vem se perdendo e/ou sendo simplificada nos terreiros de candomblé do Brasil. Esta proposta poderá ser ampliada com os comentários e postagens feitas pelos leitores. Assim sendo, peço que não economizem contribuições. Antecipadamente agradeço a todos os que lerem e contribuírem com o estudo sobre o ìpàdé.
(Escrito por Babá Thonny ty Oyá )
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